quarta-feira, outubro 24, 2012

A Igreja e o Estado Social

Quando D. Januário Torgal Ferreira foi mais assertivo sobre o que pensa deste governo o ministro Aguiar Branco deixou o aviso: "o senhor bispo deve obediência às regras da Igreja" e espera "que faça uma opção: ou ser comentador político ou ser bispo das Forças Armadas". Não caiu em saco roto. A semana passada o presidente da Conferência Episcopal, D. José Policarpo, dizia que "não se resolve nada contestando, indo para grandes manifestações" e avisava que o protesto na rua corresponde a "uma corrosão da harmonia democrática da nossa constituição e do nosso sistema constitucional". Não incomodando ninguém (e bem) por ser "comentador político", acrescentou: "este sacrifício levará a resultados positivos, não só para nós como para a Europa". Curiosamente, no mesmo momento, o padre Manuel Marujão, porta-voz da Conferência Episcopal, dizia que "a Igreja Católica não aceita que os templos e os edifícios destinados à formação e à pastoral paguem IMI. A Concordata é um tratado internacional que tem de ser cumprido". O sacrifício é excelente, já se vê, se for para os outros.
Não é de hoje. Um dos segredos da sobrevivência milenar da Igreja Católica é saber estar bem com o poder. E Portugal sabe até onde pode ir essa conivência. E como a doutrina social da Igreja se adapta facilmente, para a sua hierarquia (que não é a Igreja toda, note-se bem), aos constrangimentos dos jogos políticos.
Na realidade, a destruição do Estado Social, que os ultraliberais levam a cabo - com o álibi da crise - é uma boa notícia para a Igreja. Pelo menos para os sectores da Igreja que põem o poder da instituição à frente dos direitos humanos e do bem-estar do seu rebanho. Há muitos fatores que levaram a uma perda do poder eclesiástico na Europa. A existência do Estado Social não será o primeiro, mas não deve ser negligenciado. Porque ele substituiu uma função que a Igreja reservava para si. Nas sociedades mais pobres - e pouco interessa se são maioritariamente cristãs, muçulmanas ou de qualquer outro credo -, a Igreja cumpre essa função e essa função dá-lhe o poder de ser um Estado dentro do Estado. Quem conheça o Líbano ou o Egito sabe que foi assim que forças políticas islamistas reforçaram o seu poder social. E os efeitos que daí vieram. O mesmo se poderia dizer sobre muitos países católicos da América Latina.
A crise que vivemos na Europa tem uma vantagem para a quem quer reforçar o poder social e político da Igreja: devolve-lhe a poderosa arma da caridade e atira milhões de desesperados para os seus bondosos braços. Não quero com isto dizer que a razão porque milhares de laicos se dedicam a obras de apoio social seja oportunista. Conheço demasiados casos para cometer tal injustiça. Sei que entre muitos - a maioria - há uma real compaixão com o sofrimento alheio. E um empenhamento desinteressado. Raramente, no entanto, ele resulta na tomada de consciência das razões profundas da miséria. Demasiadas vezes ela é naturalizada, como se fosse uma fatalidade a que apenas é preciso acudir. Se não falta quem, no resto da sociedade, ignore a pobreza com "p" pequeno para apenas se interessar com a que tem "P" grande, na Igreja sucede quase sempre o contrário.
Mas não sou ingénuo. E sei o que todos devemos saber: a Igreja, todas elas, é um espaço de poder. Um espaço de poder que o Estado ameaça com as suas funções sociais. E o quotidiano social para o qual nos dirigimos é aquele em que a Igreja se move melhor. E ainda mais quando é o Estado que financia grande parte das suas obras. Há, no entanto, muitas desvantagens na troca da solidariedade institucionalizada pela caridade religiosa. Ela tem um preço: a compra da fé e da consciência. Ela tem um método: não depende da democracia. Ela tem uma hirarquia: o que recebe fica em dívida moral com o que dá. Ela tem uma condição: a perpetuação da pobreza como fonte de poder.
Compreendo a esperança de D. Policarpo e o apelo ao conformismo e ao silêncio. Até agora só recebeu boas notícias. Apenas há um senão: a sociedade portuguesa é hoje muito diferente do que era há cinquenta anos. Nem o poder que a Igreja perdeu será facilmente readquirido, nem os católicos são hoje tão obedientes como eram no passado. Suspeito que se manifestarão, diga o que disser o cardeal.
 
Daniel Oliveira - Expresso

quinta-feira, junho 16, 2011